Eu não faço parte

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   Eu não faço parte, já estive em tantas paisagens, já ouvi tantas histórias, já vivi de tantas maneiras e tantas horas, para no fim, estar entre tantos, e não pertencer a nada, não ser parte da essência de ninguém. Limitou-se meu mundo aos conselhos raros e a aprendizados passados, significando apenas lembranças, e podendo partir, sem prejuízo algum a nenhuma alma, a qualquer momento.

   A liberdade que me motiva é consequência do só. Não sou chave para amores, não sou a união de outros tantos, não apadrinho ninguém. Sou drama, fim e recomeço. Sou palavras mortas e refúgios secretos. Buscam a mim aqueles que tem medo de falar, mas crescem, revivem e voam. Sou sim, parte importante, mas não insubstituível, auxiliei o amadurecimento de alguns poucos, e me foi pago na mesma moeda. Hoje sou história, passado, sorriso amargo, ensinamento do que não fazer. Sou amiga, parceira, sumida, e por fim, vazio.

   Já pedi atenção, carinho e amor. Hoje sou vôo, quietude e fogo. Queimo a mim mesma com silêncios quebrados por vaidades, e sou calma por serem ignorados. Enfim, não sou atriz, sou mera figurante. Uma orgulhosa ignorante, de olhares expressivos e textos bonitos.

Tayná Bravin

Tayná Bravin

Só Me Faça Esquecer

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   Só me abrace forte e me faça esquecer que existe um mundo lá fora. Me tire um pouco desta bagunça, mesmo que seja só por algumas horas, eu não quero lembrar, que existem regras e costumes, nem mesmo pensar em qualquer atitude que precise ser tomada, só desejo não precisar de nada por alguns segundos, pois tudo isto, tem me feito tão mal, me tornado tão só.

   Por alguns dias, gostaria de não ser a moça educada ou  a garota rebelde, não ouvir nada que não seja o silêncio, não quero lutar batalhas que deveriam estar vencidas, me desligar de tudo de me fere tanto. Mas se não tem jeito, se alguém precisa estar a frente, estou aqui, me prontifico e me apresento.

   Eu juro, não quero julgar como sou julgada, mas nada que vejo possui o menor sentido, não quero o que o mundo oferece a todos, pois é pequeno e sofrido, quero o destino de poucos, e isso suga tudo de mim, não ouso desistir, nem ao menos reclamar. Só peço mesmo; um dia de paz antes de partir.

Tayná Bravin

Manhãs de Chuva

Usada (12)

     Sei que hoje é um dia de chuva, mas por favor, não escreva uma longa e criteriosa dissertação sobre ela, sei que á beleza nisto, mas é clichê demais para o meu bom gosto, hoje não, perdoa-me a indelicadeza e não me jogue outra vez na melancolia. Peço apenas, a paz deste dia calmo, o silencio quebrado apenas pelo barulho da chuva no telhado, não quero, de forma alguma, entender o seu significado oculto, não quero conhecer as lembranças que ela te traz, e não, não quero entender a vida e qualquer significado que ela tenha.

     Chove lá fora, minha mente vaga, pensando no tudo e em nada, uma xícara de chá, um livro de cabeceira, por hoje, juro, isso me basta.

  Permaneço até mais tarde na cama, afinal, ninguém cumpre mesmo um compromisso em dia de chuva, fico nesta cama quente, mais confortável que nunca, após uma noite bem dormida, aconchego-me nela e ignoro, que estou completamente sozinha, pois nunca estive tão em paz. Sabe, é sempre bom estar em sua companhia, mas hoje, fico grata por este silêncio. 

Tayná Bravin

Cavaleiros Solitários

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Cavaleiros Solitários

    Revirar o passado é uma atitude perigosa, bater de frente com tantos sentimentos nos torna um tanto solitário, um caminho cheio de pedras, obstáculos que você acreditava ter contornado. Sentir tudo de novo com a mesma intensidade, sorrir e se desesperar novamente.  Assuntos mal resolvidos voltam à tona, ao centro das atenções, como prova de que precisaremos enfrentá-los algum dia. Não existe, em todo o mundo, um caminho mais perigoso do que aqueles que existem dentro da gente, significam reviver, significam destrancar todos os monstros dos quais fugimos, tirar os próprios medos debaixo da cama.  Eu embarquei  em um desses caminhos, de volta a mim mesma, cai tantas vezes, e mal me lembrava, até reler cada palavra e descobrir no que me tornaram, o tempo passou e me levou com ele, mudei, ate não ser capaz de me reconhecer, e hoje, distante, voltei a sentir.

    Um ser que caminha sozinho, este tem sido meu retrato nos últimos tempos. Um retrato bonito, obscuro, atemporal. Uma imagem que reflete pessoas do mundo todo, encontradas em qualquer época ou ambiente. Cavalheiros solitários, usando uma armadura criada pelo medo, uma espada provida do ressentimento, montadas em um cavalo sem destino certo nascido do desprendimento.

    Tais seres aprenderam a lutar sozinhos, a cair sem se entregar, a erguer-se falsamente. Sorriem de lado, vêem o mundo sem brilho, sempre atentas, sempre a postos, prontas para mais uma batalha, não creem no homem, não são exemplo nem para si mesmas, se julgam, se matam, se entregam. Não há paz, o silencio perturba, não há companhia agradável, não se importam, não esperam nada da vida e nem a vida delas. Apesar de sozinhas, vêem mais longe, sentem com mais intensidade, vivem por ai, perdidas no mundo, procurando por fora, o que só encontraram dentro, uma maneira de serem inteiras.

Tayná Bravin